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Sobre o observatório

O Observatório da Imprensa é uma entidade civil, não-governamental, não-corporativa e não-partidária que acompanha desde 1996, primeiro pela internet e depois pela TV, o desempenho da mídia brasileira. O BLOI (Blog do Observatório da Imprensa) pretende funcionar como um fórum complementar, para que os usuários comentem o dia-a-dia da nossa imprensa. Sejam bem-vindos!


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Semanas Anteriores

03/02/2004 23:43
EDIÇÃO 3/2/2004
Gilligan, a verdade e outras vítimas

BBC JOGADA ÀS FERAS
A história de uma crise sem precedentes

Luiz Weis

Às 6h07 da manhã de 29 de maio de 2003, Andrew Gilligan atendeu o telefone em sua casa, no subúrbio londrino de Greenwich. Do outro lado da linha, como ele sabia, estava John Humphrys, um dos apresentadores do consagrado radiojornal Today, da BBC 4, transmitido de segunda a sexta, das 6h às 9h.

Gilligan, um encorpado repórter de 35 anos, cobria Defesa e Política Externa para a emissora. Experiente garimpeiro de notícias, havia antecipado em primeira mão, por exemplo, a campanha pela erradicação de minas terrestres, que ficaria famosa mundo afora graças ao envolvimento da princesa Diana, e o polêmico plano da União Européia – que acabaria dando em nada poucos meses atrás – de ter uma Constituição.

Ele também mantinha uma coluna no semanário sensacionalista Mail on Sunday, o que não era propriamente católico para os padrões da BBC. Na semana passada, um conhecido o descreveu como um "indivíduo individual" – um lobo solitário, se diria nas redações brasileiras.

No Sunday Telegraph, onde trabalhara antes de se empregar na BBC, Gilligan se destacava pelo gosto de varar noites, por desaparecer sem avisar e por seu caderninho cheio de boas fontes. Vivia para a profissão e era considerado, nas palavras de um editor, "um repórter implacavelmente determinado".

Desde o advento da TV a cabo e desde que, na Inglaterra, um crescente número de estações de rádio e TV particulares começou a latir nos seus octogenários calcanhares, o jornalismo da BBC tratou de ficar mais ousado nas pautas, na apurática e no modo de levar ao ar as suas mercadorias. A contratação do repórter investigativo Andrew Gilligan tinha a ver com essa mudança. (Mas, na sexta-feira passada, dia 30, quando se demitiu, um colega disse na TV: "Ele não era um jornalista do tipo BBC".)

Outra inovação que rompia com as sacrossantas tradições de austeridade da Beeb, como é chamada pelos britânicos, embora fosse praxe na mídia eletrônica em geral, era dar as notícias que se prestassem a isso sob a forma de conversas desempertigadas, ao vivo, entre âncoras e repórteres – tendo estes, ou não, redigido textos para ler ou se orientar, e estando onde estiverem.

E foi para isso que o apresentador Humphrys ligou para a casa de Gilligan naquele começo de manhã de primavera.

***

Os 12 capítulos seguintes desta análise eletrizante do Caso Kelly estão aqui.
enviada por Moderador


20/01/2004 12:48
EDIÇÃO 20/1/2004
Relações abaladas

SARRAFADA N° 2
Governo bate e Geni não reclama

Alberto Dines

A nova investida do governo contra a imprensa – a segunda no mês – tem circunstâncias que a tornam ainda mais grave:

** Foi vocalizada pelo ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, ao que consta um político racional, negociador hábil, pouco inclinado a explosões emocionais e que, pela soma de poderes e atributos pessoais, é quase um primeiro-ministro.

** Foi ele o primeiro a manifestar publicamente – antes mesmo da posse do presidente Lula da Silva – a idéia de que a imprensa era assunto de interesse nacional.

** A partir dessa manifestação, considerada como sinal verde, o empresariado da mídia brasileira animou-se a apresentar um pleito formal junto ao BNDES para uma linha de crédito privilegiada.

** O ataque, desta vez, foi desfechado também contra o Ministério Público, que estaria mancomunado com a imprensa para a divulgação de suas investigações. Acontece que as entidades que representam o MP (a Conamp e a ANPR) pronta e briosamente contestaram as acusações do ministro José Dirceu (O Globo, segunda, 19/01, pág. 3). O mesmo, no entanto, não fizeram as entidades que representam a imprensa. Enfiaram o rabo entre as pernas. Protestaram isoladamente jornalistas políticos (Dora Kramer, Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil, segunda, 19/1) mas os jornais, enquanto instituições, calaram-se. Controlam o direito de resposta mas não sentiram-se obrigados a exercê-lo democraticamente. Exceções feitas ao mesmo Estadão e ao Globo que, quatro dias depois da investida do ministro (terça, 20/1) manifestaram-se em editoriais.

** No mesmo dia da bordoada do ministro José Dirceu (sexta-feira, 16/1, jornais do dia seguinte) o presidente do BNDES Carlos Lessa, geralmente bem-humorado, esqueceu a bonomia carioca e abriu o saco de maldades contra a imprensa gozando-a pelas 34 vezes em que foi “demitido” das suas funções. Registre-se que Carlos Lessa, pelo cargo que ocupa, dará a palavra final no pleito da mídia para uma linha de crédito especial.

Estes são os dados da equação.

As avaliações:
** A manifestação do ministro José Dirceu ocorreu durante uma cerimônia de desagravo ao amigo e companheiro deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), cujo nome apareceu no noticiário associado a torturas que teriam sido praticadas contra um dos supostos assassinos do prefeito Celso Daniel. Apenas um jornal, a Folha, veiculou a denúncia aparentemente vazada pelos membros do MP que acompanham o caso. Nenhum outro grande jornal deu seqüência à informação. Justifica-se a reação diante da irresponsabilidade da denúncia.

** Mas o governo que tanto se queixa das generalizações dos meios de comunicação fez exatamente a mesma coisa: generalizou – apesar de o ministro referir-se a “setores da imprensa”. Estendeu a uma instituição – a Imprensa – a falha cometida por uma das suas partes. Ficou com medo da Folha ou preferiu bater na Geni, conjunto abstrato e desfibrado de outras folhas?

** Enquanto isso, esta mesma imprensa – teoricamente ágil e atenta ao interesse público, por isso merecedora de uma atenção especial do governo – entregou-se à modorra de verão: não reagiu. Não deu tempo? Jornal não sai todos os dias? Na sexta-feira não se preparam os editoriais de sábado, domingo e segunda? Se o assunto pode ser adiado por quatro ou cinco dias, qual a razão da azáfama e do apregoado compromisso com a atualidade?

** O conluio Ministério Público-Imprensa ou Quarto Poder-Sexto Poder, se existe de fato, foi criado no tempo em que o PT era oposição e imperava um sistemático vale-tudo para enfraquecer o governo. O vazamento de informações sigilosas converteu-se em prática comum porque eram imediatamente transformados em candentes discursos na Câmara e no Senado pelas infatigáveis lideranças da oposição.

** O surpreendente mau-humor de Carlos Lessa não foi obra do acaso. Gozou pesadamente a imprensa em seguida à gabolice do governador Roberto Requião, ao afirmar perante os repórteres que viera à capital federal para preservar o presidente do BNDES do troca-troca ministerial. Se uma figura da categoria moral e profissional de Carlos Lessa precisa de uma proteção deste tipo fazem sentido os 34 rumores veiculados a respeito de uma eventual substituição.

A grande verdade é que o governo está em clima de campanha eleitoral e a imprensa não está. Neste descompasso há espaço para todos os mal-entendidos. E nele embute-se aquele ABC do Jornalismo enunciado pelo presidente Lula da Silva na solenidade de fim de ano: “Notícia é aquilo que nós não queremos que seja publicado, o resto é publicidade”.

Em campanha, candidatos, só gostam de elogios. Se a imprensa erra é na falta de malícia para perceber que esta foi a pior hora para pleitear qualquer coisa de um governo em permanente estado de mobilização eleitoral.

Observatório da Imprensa
enviada por Moderador


20/01/2004 12:44
Desvios absolutistas

MÍDIA & GOVERNO
Ministro quer controle da imprensa

Luciano Martins Costa (*)

Alguns personagens de nosso teatro político simplesmente não conseguem resistir à tentação de gerar conflitos em seu relacionamento com a imprensa. Alguns de nossos mais bem-sucedidos jornais também não resistem à oportunidade de produzir mal-entendidos, pela simples inabilidade para diferenciar o que seja uma fonte confiável de comezinhas manobras de manipulação. Na sexta-feira (16/1), o conflito entre a Folha de S.Paulo e o deputado petista Luiz Eduardo Greenhalgh foi apropriado e amplificado pelo ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, que já havia, dias antes, protagonizado outro qüiproquó ao afirmar, contra a opinião de seu colega da Fazenda, Antônio Palocci, não haver hipótese de o Banco Central ganhar autonomia em 2004. No caso do BC, Dirceu disse que não havia dito o que foi publicado.

No caso recente, essa hipótese não existe.

Dirceu aproveitou uma sessão de desagravo ao deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, organizada pelo PT juntamente com a Ordem dos Advogados do Brasil, para pedir ao Congresso providências no sentido de “conter a imprensa e o Ministério Público”. A motivação do ministro era a acusação do preso Rodolfo Rodrigo dos Santos Oliveira, conhecido como Bozinho (acusado pelo assassinato do então prefeito de Santo André, Celso Daniel), tomada isoladamente e publicada pela Folha em 23 de dezembro passado, na qual o deputado – e advogado militante na causa dos direitos humanos – fora apontado como autor de torturas e maus-tratos durante um interrogatório.

A encrenca estava, até então, restrita ao deputado e ao jornal que havia publicado a declaração do suposto assassino. Todas as manifestações colhidas até então circulavam em torno da defesa de Greenhalgh, contra quem, de fato, tal acusação não pode ser tida como verossímil. Em vez de se ater à defesa de seu companheiro de partido, ou de se referir explicitamente à Folha de S.Paulo, como havia feito pouco antes em conversa particular com outros interlocutores, o ministro acende o pavio de perigosa polêmica ao usar uma entrevista coletiva para disparar genericamente, contra toda a imprensa nacional, acusações de prática de mau jornalismo e de atentados contra a cidadania.

“O outro lado”
O Estado de S.Paulo registrou já em sua primeira versão online, por meio da dupla Rita Tavares e Ana Paula Scinocca, que o ministro estava denunciando uma “persistente e permanente violação” de direitos dos cidadãos pelo Ministério Público e pela imprensa (“parte dela”, amenizou o Estadão, por sua conta e interesse). O desejo do ministro de ver a imprensa sob controle não poderia ser mais explícito: “O Congresso Nacional precisa se debruçar sobre essa situação de extrema gravidade”, conclamou José Dirceu, defendendo, segundo as repórteres, a atuação da OAB na questão.

Os advogados, juízes e membros do Ministério Público que vinham estudando formas de colocar “sob controle” o risco de perdas morais produzidas pelo trabalho jornalístico (veja remissão abaixo) com certeza voltarão a se assanhar, agora que têm o aval do nosso Richelieu caboclo. E um novo dilema se abaterá sobre nossos publishers, já precariamente equilibrados entre a conveniência de manter boas relações com o governo, por conta de um eventual socorro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, e a necessidade de ofício (e de sobrevivência) que manda combater o bom combate da liberdade de imprensa.

A Folha também fez seu registro, mas foi mais lacônica. Ou preferiu não passar recibo de um eventual pecado de mau jornalismo. Disse, textualmente, no pé de uma reportagem cujo tema principal era a aliança do governo petista com o PMDB: “Dirceu e João Paulo (presidente da Câmara dos Deputados) estiveram em São Paulo para um ato de apoio ao deputado Luis Eduardo Greenhalgh (PT-SP), acusado por um preso de tê-lo torturado na prisão, fato publicado em uma reportagem da Folha. A reportagem divulgou denúncia feita em juízo por um preso envolvido no assassinato do prefeito de Celso Daniel sobre uma suposta agressão feita pelo deputado. Na ocasião, Greenhalgh classificou a acusação de ‘absurda’”. Tratou, portanto, de tornar implícito que havia, em sua edição de 23/12/03, ouvido “o outro lado”. E aí é que mora o perigo: que credibilidade tem o “lado A” da reportagem? Que artimanhas conduziram até a Folha um depoimento sigiloso tomado em inquérito que corre sob segredo de Justiça?

Pendores autoritários
Haverá espaço mais que suficiente neste Observatório para debates sobre a qualidade de um jornalismo que se presta a manobras de advogado esperto (ou – escolha o leitor – de um jornalismo que vai às últimas conseqüências para bem informar seu público) e não se incomoda em trazer à luz questões que estão protegidas por necessidades legais. Também haverão de se estender considerações sobre a real grandeza do ato de “ouvir o outro lado”, quando não bastam ao protagonista do “lado B” da reportagem uma vida inteira de dedicação a causas nobres e uma biografia sem jaça, que tirariam da referida acusação qualquer verossimilhança.

Mesmo porque, na ocasião em que reproduzia as alegações de Rodolfo Rodrigo dos Santos Oliveira, a Folha tratou os dois personagens com equanimidade. O deputado, que na ocasião dos fatos citados acompanhava, por designação do PT, as investigações sobre a morte do prefeito de Santo André, teve oportunidade, em 22 de dezembro passado, de dizer que não era um torturador. E a Folha lhe concedeu a íntegra da declaração. Por meio de sua assessoria, Greenhalgh disse: “Lutei contra a prática de tortura neste país desde a ditadura militar até hoje. Os depoimentos dos envolvidos no caso Celso Daniel eram presenciados por testemunhas, feitos pelos delegados e promotores e vistos por mim. Quer no Deic [Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado], quer no DHPP, quer na Polícia Federal. Durante a investigação do caso, não presenciei nenhum tipo de agressão aos envolvidos nos depoimentos que acompanhei. Isso é um absurdo”.

Uma questão que deve permear o debate: cabe aqui a equanimidade? Ou ela soa como o cumprimento de um protocolo que dissimula um jornalismo de categoria muito ordinária?

Temos aqui material suficiente para muita conversa, que se haverá de desenrolar com observadores mais qualificados. Apenas quero voltar ao nosso personagem lá do início, o ministro José Dirceu. Tido por muitos analistas como verdadeiro alter ego do presidente da República e sua mais completa tradução ideológica – mais ou menos como Armand Jean du Plessis, o cardeal Richelieu, em relação ao rei Luís 13 –, ele não havia expressado esses pendores para o autoritarismo em tempos anteriores à sua chegada ao poder.
Não por acaso, esta manifestação explícita do ministro-chefe da Casa Civil em defesa de maior controle da imprensa soa como uma tradução em melhor verbo de algumas observações canhestras feitas pelo presidente da República sobre o que considera bom ou ruim na mídia. Guardadas as proporções, evidentemente, não custa lembrar que Richelieu foi o criador do absolutismo real, na França do século 17.
(*) Jornalista

Observatório da Imprensa
enviada por Moderador


20/01/2004 12:36
Rugidos patrióticos

SELF ESTEEM...
Mídia americanizada finge que é patriota

Alberto Dines

A “guerra” Brasil-EUA tão estimulada por uma mídia sem assunto faz lembrar aquela piada do patrício preocupado com a nossa situação econômica que imaginou um Plano Marshall (igual ao que os EUA usaram para a recuperação dos inimigos derrotados na 2ª Guerra Mundial).

“Tudo bem, entramos em guerra com os EUA, eles reabrem o Plano Marshall e nos passam uma boa grana. [pausa] E se ganharmos?...”
Os viajantes da Venezuela e da Argentina também são fichados ao chegar aos EUA e as respectivas auto-estimas não produziram este pré-carnaval xenófobo.

“Piloto dos EUA ofende o Brasil e é preso.” Com esta manchete de primeira página na quinta-feira (15/1), o Diário de S.Paulo certamente preparava os ânimos para uma passeata ao consulado americano, a queima de bandeiras ianques, a malhação de algum Tio Sam de palha ou o desembarque das nossas tropas para ocupar a Disneylândia – ao som de uma banda de heavy metal e a presença de alguns skinheads vestidos a caráter.

A verdade é que o antiamericanismo made in Brazil é americaníssimo, thanks God. Se nossas milícias nacionalistas não tivessem medo das multas inventadas pelo deputado Aldo Rebelo para proteger o vernáculo marchariam cantando Stars and Stripes sob a batuta de algum talentoso DJ (leia-se di jei).

Aquele dedo em riste mostrado pelo piloto Dale Hersh só é obsceno para quem não sabe que o equivalente gestual no Brasil é o circulo composto pela junção do indicador e o polegar acompanhado pela expressiva alocução “aqui, ó...”

Ninguém se lembra da reciprocidade na hora de adotar os modismos anglo-saxões e, assim, colonizados até na malandragem, esquecemos da brasileiríssima “banana”, muito mais expressiva e sonora.

Convém não esquecer que a onda ianque ganhou dimensão graças à submissão da nossa mídia a tudo o que vem de fora. Quanto maior a imbecilidade, maior a nossa adesão. Agora, para livrar-nos desta praga, conviria algo mais sério do que a guerra de araque que só interessa aos idiotas ao sul e ao norte do rio Grande. [Texto fechado às 22h de 19/1/04]

Observatório da Imprensa
enviada por Moderador


20/01/2004 12:27
Uma relação azeda

BUSH & MÍDIA
Quatro anos de controvérsias

Se há algo com que o presidente George W. Bush não se preocupou durante todo o seu mandato, foi a imprensa. Desde o momento em que foi eleito, em 2000, tentou ignorar a resistência de diversos meios de comunicação em aceitar sua vitória, por causa de um erro na leitura das cédulas na Flórida. Dias antes de Bush assumir o cargo a imprensa americana continuava a acompanhar a empreitada democrata de recontar os votos nas urnas problemáticas por meio de um consórcio que incluiu veículos como The New York Times, The Washington Post, The Los Angeles Times e CNN.

Em setembro de 2003, Bush assumiu publicamente que não lê jornal, apenas passa os olhos nas manchetes, preferindo confiar na objetividade de seus assessores, estes sim leitores assíduos de jornais.

A Casa Branca chegou ao ponto de preferir dar coletivas sobre a guerra no Iraque à mídia regional, abandonando a grande imprensa, pelo uso indevido de “filtros” tendenciosos. Ou de criar uma transmissora própria via satélite no Iraque para abastecer a mídia americana de cenas e fatos “reais”. Os exemplos são numerosos. O atual governo americano não confia na imprensa. O fato é que a maioria dos repórteres que está hoje na Casa Branca não votou em Bush. O desconforto, de ambas as partes, é inevitável. Quem já teve a oportunidade de ver uma entrevista televisionada com Bush – recentemente o canal a cabo A&E Mundo reproduziu no Brasil uma entrevista da ABC – nota claramente a tensão dos diálogos. O ano de 2004 é de eleição, e é possível que a postura dos republicanos mude ao longo dos meses.

Pecado capital
Por enquanto, Bush e a Casa Branca continuam hostis. No ano passado, o presidente disse a um repórter: “Vocês fazem uma gigantesca suposição, a de que representam o que o público pensa”. Noutra ocasião, disse que a imprensa é “elitista”, um monte de gente tentando “montar uma manchete ou uma reportagem que faça com que o público preste atenção a sua revista, a seu jornal ou a sua emissora”. O chefe da Casa Civil, Andrew Card, disse achar também que os jornalistas “representam o público tanto quanto qualquer outro grupo”.

Os comentários acima, inéditos, foram reproduzidos pelo analista de mídia Howard Kurtz [The Washington Post, 12/1] a partir de artigo do colunista Ken Auletta, da New Yorker impressa, que abordou a relação de Bush com a imprensa americana. Auletta voltou ao tema em entrevista ao repórter Daniel Cappello, da New Yorker Online Only [13/1/04]. O veterano Kurtz considerou impressionante a natureza de tais comentários, “até desonrosa”. O conselheiro de Bush para assuntos de mídia, Mark McKinnon, disse “que o papel e a importância do quadro de repórteres da Casa Branca diminuiu hoje talvez significativamente”.

Na entrevista a Cappello, Auletta diz que há duas diferenças de comportamento, em relação à imprensa, entre Bush e os presidentes anteriores. A equipe de Bush é mais disciplinada e forma uma unidade coesa, leal ao presidente. Além disso, “rejeita a idéia apresentada pela maioria dos repórteres de que são neutros e representam o interesse público”. Dessa forma, a Casa Branca trata a imprensa como apenas mais um grupo de interesse, disse Auletta. A segunda diferença decorre da primeira: as declarações em off são um pecado capital para os funcionários do governo.

Com desprezo
Auletta afirmou que o governo Bush tem certa razão ao reclamar do pendor liberal da imprensa. Os próprios repórteres da Casa Branca reconhecem, particularmente, que são “mais liberais do que a maioria dos eleitores americanos”, disse Auletta. “Um deles nota freqüente tendenciosidade quando se fala de aborto, assunto em que os conservadores são vistos como fanáticos, e os favoráveis à escolha [como são chamados nos EUA os pró-aborto] são considerados defensores dos direitos humanos”. Auletta acredita, porém, que a maioria dos repórteres tenta ser justa, mas acaba inconscientemente parcial. “Eles descrevem a imprensa como crítica de todos os presidentes, não apenas dos conservadores”.

Ao discorrer sobre o compromisso do presidente de facilitar o acesso da imprensa, Auletta acha que o atual governo não tem cumprido a função plenamente. “Bush deu apenas 11 entrevistas coletivas, menos do que qualquer outro presidente moderno”, afirmou. “Seu pai concedeu 71, e Bill Clinton, 38”.
Do outro lado da moeda, os jornalistas também se queixaram a Auletta. “Freqüentemente nos tratam com desprezo”, disse Elisabeth Bumiller, repórter do New York Times. Para Auletta, a imprensa só começou a prestar atenção em Bush após o 11 de setembro de 2001, quando ele se tornou um “presidente em tempo de guerra”. Embora vista como adversária pela Casa Branca, e até mesmo de se considerar como tal, a imprensa americana, para Auletta, falhou em “analisar as declarações sobre a presença de armas de destruição em massa [no Iraque] da maneira como deveria”. Uma parte da mídia, principalmente a Fox News, “tratou dissidentes como antiamericanos”. “A imprensa só ficou mais crítica quando Bush declarou ‘missão cumprida’, no dia 1o/5/03, a bordo do porta-aviões Abraham Lincoln.

Observatório da Imprensa
enviada por Moderador


14/01/2004 22:34
EDIÇÃO 13/1/2004
São Paulo, festa e lantejoulas

Cidade: 450; jornalismo de cidades: zero

Alberto Dines

Em dezembro começaram a preparar o arraial para a festa dos 450 anos mas o Espírito de Natal & Fim de Ano foi mais forte (por Espírito de Natal entenda-se também o razoável volume de anúncios e os sucessivos enxugamentos nos quadros).

Agora, véspera do grande niver – trisesquicentenário???–, e com os jornais entregues ao Vazio do Verão, criaram-se finalmente as condições para a entrada de um novo player ou nova pauta: a urbe, a metrópole, a maior e mais importante cidade brasileira na sua data natalícia.

Hora de pensar no jornalismo local ou metropolitano. A reportagem de cidade já foi uma escola – aquela em que o repórter aprendia a gastar a sola do sapato. Já foi um gênero – aquele em que o profissional envolvia-se 24 horas por dia. Hoje converteu-se em contingência da nova topografia dos grandes diários imposta pelo modismo da cadernização. Salvo as honrosas exceções etc., etc.

Aquelas páginas que já foram as mais palpitantes porque tratavam do universo imediato das suas audiências converteu-se num espaço indiferenciado onde cabe tudo, desde o desastre ocorrido a 500 quilômetros de distância como a discussão em Brasília sobre a maioridade penal.

Nossos cadernos de cidade separados do resto do noticiário foram criados na Era da Bolha (anos 80-90) quando os manda-chuvas reunidos em algum seminário decidiram que o jornalista do futuro era o jornalista-marqueteiro. A palavra de ordem passou a ser "segmentação". Como se a cabeça do leitor fosse dividida em editorias e sua curiosidade seccionada por temas e, não, pela importância do acontecimento.

O caderno dito local do Estado de S.Paulo chama-se "Cidades", lá abrigam-se notícias não apenas da Grande São Paulo mas também de acontecimentos ocorridos em Palmas, Osasco, Araraquara ou Uruguaiana.

Numa de suas sucessivas reformas, o Jornal do Brasil criou o caderno "Cidade", no singular, para designar a cobertura do Grande Rio. Mas cerca de 40% do seu espaço é efetivamente ocupado pelo noticiário local, 10% por uma coluna mundana e os restantes 50% pela cobertura de economia & negócios.

O caderno da Folha (como sempre o precursor) leva o título de "Cotidiano". Como se as notícias da página de política nacional ou internacional não fossem igualmente cotidianas, fatos do dia. Nossos dicionários ainda consideram o vocábulo "cotidiano" como sinônimo de qualquer publicação diária, tal como acontece com o quotidien, em francês. O pior é que o título não tipifica coisa alguma, disfarça uma terra de ninguém onde pode caber matéria local, assuntos federais ocorridos nas suas imediações ou o noticiário esportivo (nos dias em que não há um caderno especializado).

O Globo fez a opção mais sensata e profissionalmente mais correta: não tem caderno de cidade. O noticiário local tem a mesma importância do noticiário nacional. Ambos hierarquizados no primeiro caderno. Atende, assim, ao seu histórico como vespertino (onde predominam os fatos locais) mas também assume o compromisso de obrigar o leitor a interessar-se pelos problemas que o afetam mais diretamente e, em geral, considerados não-transcendentais.

Encontro com o passado

Qualquer que seja o nome ou a sua localização no jornal, a verdade é que o noticiário de cidade desfigurou-se. Não se cobrem as secretarias municipais, prefeitura (ou prefeituras das regiões metropolitanas) e também não se cobrem as "gaiolas de ouro" (apelido da Câmara de Vereadores do Rio transformado em genérico). Salvo as honrosas exceções etc., etc.

Sob o ponto de vista jornalístico, a cidade deixou de ser o território cívico mais imediato. Agora é apenas uma convenção, perímetro urbano onde registram-se as ocorrências mais próximas (escândalos, crimes ou desastres).

Exemplo da desfiguração da cobertura local está sendo o caso da construção simultânea de duas passagens subterrâneas num dos polígonos mais importantes da cidade de São Paulo (avenidas Faria Lima, Rebouças e Cidade Jardim), iniciada há dias e que já está provocando radical modificação no trânsito.

As alterações foram intensamente badaladas simplesmente porque a prefeitura da cidade, naturalmente preocupada, adiantou-se e preparou farto e competente material explicativo, inclusive um mapa em cores distribuído dentro dos jornais.

Não houve debate na hora da licitação da obra ou quando foi definido o seu cronograma. Nada foi escondido pelas autoridades, mas, em compensação, nada foi adiantado pelos jornalistas. A população de uma metrópole de 10 milhões de habitantes, a mais importante do país e da América do Sul, foi surpreendida por uma obra dessas proporções quando o fato estava consumado, irrecorrível. Porque os repórteres de cidade não lêem o Diário Oficial do município, não acompanham o expediente das secretarias ou do gabinete da prefeita e porque os editores não querem incomodar-se com questões mais complicadas. Com as honrosas exceções etc., etc.

Ninguém duvida: a obra é imperiosa. Mas a cobertura prévia também, tal como o direito do cidadão de opinar sobre aquilo que lhe diz respeito.

Cobrir uma festa não tem problemas, todos são a favor. Quatrocentos e cinqüenta anos de fundação de uma cidade num país apenas 54 anos mais velho é um reencontro benfazejo e estimulante com o passado. Nostalgia não incomoda ninguém.

Um pouco mais complicado é discutir algo que vai mexer com a vida de milhões de pessoas durante 11 meses. Dá trabalho. E o jornalismo, hoje, pauta-se pela lei do menor esforço. Salvo as honrosas exceções etc., etc.

Em tempo: Em sua edição de terça-feira (13/1), a Folha puxou a discussão sobre as obras do complexo Faria Lima. Não era sem tempo. (A.D.)
enviada por Moderador


14/01/2004 22:32
Crise em Roraima

A imprensa, os índios e os brancos
Ulisses Capozzoli

Os atritos envolvendo populações indígenas e proprietários rurais, no Mato Grosso do Sul e em Roraima, têm raízes tão antigas quanto a formação do Brasil, embora muitos queiram enxergar no conflito interesses localizados.

A mídia, quase sempre distanciada desses temas, a não ser quando é provocada por manifestações de descontentamento, contribui com sua cota involuntária de exotismo.

Urucum, semente fartamente utilizada por povos indígenas como fonte de tintura vermelho-sangue, pode ser chamada de "árvore", quando o urucuzeiro, a planta que produz o urucum não passa de um arbusto.

Pequenas peças de bambu, galhos improvisados para uma manifestação se transformam em "bordunas".

Borduna é um instrumento sólido e pesado, em madeira densa, usado para defesa e ataque, normalmente por povos que não fazem uso de arco e flecha.

E, claro, sempre alguns repórteres ficam "retidos" e "ameaçados".

Ao longo de uma história em que sempre levaram a pior, as populações indígenas aprenderam espertamente a conviver com a mídia. E fazem suas cenas. É parte de uma estratégia antiga. Nem sempre são compreendidos nesse ritual que objetiva uma estudada intimidação.

Os jornais, especialmente, não têm, neste momentos, repórteres capazes de trazer para a redação trabalhos mais profundos, capazes de dar inteligibilidade possível a esses acontecimentos. Não porque não existem talentos capazes disso. As redações é que não estão interessadas.

As redações querem histórias curtas e objetivas, com começo, meio e fim. E quanto mais fútil, melhor. É como se houvesse desinteresse ou ceticismo quanto à inteligibilidade. Como se fosse uma descortesia convidar o leitor a refletir. Parte-se do pressuposto de que todos têm muita pressa e não sobra tempo para pensar.

Essa profunda alienação contemporânea tocou fundo homens como Nietzche e Ortega y Gasset, entre muitos outros, e os prognósticos que eles fazem disso não são nada animadores. Não há chance alguma numa vida alienada.

Fazendas enormes

Com freqüência se lê ou se ouve de representantes de agropecuaristas vizinhos de populações indígenas que esses povos têm terras em excesso.

Comparada a uma propriedade rural tecnificada, com tratores, pesticidas, sementes melhoradas ou rebanhos promissores, as terras indígenas podem parecer excessivas.

Mas índios não são fazendeiros convencionais.

A terra é a fonte de onde retiram seus sustentos, em caça, pesca, coleta ou plantio de frutos e outros alimentos básicos, como a mandioca e o milho. Mas a terra se confunde com eles. Não é um bem no sentido monetário, ou de prestígio social, como acontece na sociedade exterior.

Os índios são parte da terra e, confinados como um fazendeiro deixam de ser índios sem chegarem a ser "brancos". Sem a terra eles não podem existir.

Da forma tradicional como vivem, os povos indígenas necessitam de grandes áreas. Muitos deles são nômades e as longas caminhadas que fazem, alterando terras baixas e altas, dependendo de secas ou chuvosas, são, de alguma forma, o motivo de estarem no mundo.

O que estamos fazendo no mundo?

Faça uma pergunta como essa a um fazendeiro "branco" e raramente você ouvirá uma resposta comovente. Não porque os fazendeiros sejam necessariamente estúpidos. Mas porque eles pensam em termos monetários. Só assim podem ser fazendeiros.

Índios e fazendeiros são espécies que não se confundem. Isso é o que quero dizer. Por isso não podem ser comparados. Não há sentido em se tentar comparar fatos incomparáveis.

No Mato Grosso do Sul, índios de várias etnias invadiram fazendas no município de Japorã e proximidades, argumentando que estavam apenas retornando aos seus antigos territórios. Estão corretos. Mas terão que negociar essa posição com os fazendeiros locais que, na verdade, podem ser empresas com nenhum vínculo com a terra.

Multinacionais, como fabricantes de automóveis, são proprietárias de enormes fazendas no Brasil.

Claro que isso não é contra a lei. Mas a lei, muitas vezes, é apenas um escudo. Um disfarce para explorações nada legais, como sugere a Operação Anaconda, que, neste momento, levanta dos podres de meritíssimos representantes da lei.

Não é ilegal, mas é imoral. E contra isso podem se bater todos os advogados com suas falas eloqüentes e cheias de parábolas.

Como crianças

Boa parte das terras hoje regularizadas, em estados de ocupação recente, como o Mato Grosso do Sul, subdivisão do antigo Mato Grosso, foram obtidas no boca do fuzil. Ou pela negociata, favorecimento e pura corrupção. Por isso o argumento de que são portadores de escrituras não deveria bastar para assegurar a pretensão de muitos proprietários. Especialmente se estiverem respondendo aos índios, proprietários históricos de todas essas terras do Brasil.

Alguém, mais cínico, pode argumentar que um raciocínio desse faria com que devolvêssemos todas as terras aos índios e voltássemos de carona para as terras de onde vieram nossos próprios ancestrais.

Claro que é puro cinismo. Pode ser até divertido. Mas, por muitas e diferentes razões, é inteiramente inconsistente.

A população indígena brasileira hoje não passa de 325 mil indivíduos. Mas já foi muito menor em meados do século passado.

Há quem sustente que à época da chegada de Cabral e seus homens o Brasil tinha uma população de 5 milhões. Há muitos caminhos, da lingüística à pesquisa arqueológica, além de outras referências históricas, para se aceitar um número desse porte.

Eliminamos boa parte por "espingardeamento", para usar uma expressão corrente em Darcy Ribeiro. Fizemos desaparecer um outro tanto por transmissão intencional de doenças como a varíola. Transmitimos enfermidades ingênuas aos nossos olhos e letais para os organismos desses povos, como a gripe.

Escravizamos em nome de Deus e exigimos que eles se cobrissem, abandonassem as habitações coletivas e consumissem açúcar e café. Depois tentamos voltar atrás e rimos deles pelo apego ao café, ao açúcar e por gostarem de balas de caramelo. Dissemos a eles, como dizemos às crianças, que as balas estragam os dentes e são prejudiciais à saúde.

Na verdade, não sabemos quase nada dos nossos índios. Por isso os repórteres se referem a um pedaço de bambu, um galho improvisado para uma demonstração, como "borduna", quando borduna, de fato, é uma outra coisa.

Terra sem lei

Os índios muitas vezes se divertem com isso. E muitas vezes choram por essa nossa incompreensão. Já vi líderes indígenas respeitados levarem seus jovens às lágrimas pelo relato do que viram no passado. De bom e ruim.

Vi Prepori, líder dos Caiabi, no Xingu, sonhar com olhos abertos com as terras que não existem mais em localidades como Alta Floresta, no Mato Grosso, uma das muitas cidades que nasceu do garimpo e depois trocou o ouro esgotado pela pata do boi.

Ouvi Aritana, dos Yalapiti, expressar o temor de que os jovens se enfeiticem com o mundo dos brancos e desistam de ser índios.

Já escutei Davi Kopenawa, na Ianomâmi, falar de seus mitos incompreendidos enquanto deslizávamos por uma estrada lamacenta cortando a selva como uma serpente comprida, entre o Brasil e a Venezuela.

Em nenhuma dessas vezes me orgulhei de ser um "branco".

Também já estive na bela reserva de Raposa Serra do Sol, que o ministro Thomaz Bastos promete homologar ainda este mês. Posso dizer o óbvio: a situação é complicada nessas regiões de fronteira da ocupação, como é o caso de Roraima.

A sede da localidade de Uiramutã, por exemplo, foi provocadoramente plantada no meio de uma aldeia indígena. Os índios reclamaram, inclusive com hostilidades, mas isso não bastou.

Os jornais dizem que as populações indígenas estão divididas em Raposa Serra do Sol quanto à demarcação contínua (incluindo fazendas e povoados) e não contínuas (recortando essas ocupações).

Por tudo que vi, sei que essa "resistência" passa pela manipulação de proprietários agrícolas, os mesmos que fizeram os postos de combustíveis de Boa Vista suspenderem as atividades. Os mesmos que paralisaram as estradas por dois dias inteiros. Os mesmos que estão habituados a ditar a lei que lhes convém, em nome do mercado, da modernidade e uma série de outros motivos que, no fundo, só interessam a eles próprios.

E em Roraima não estamos falando de "índio bom" e "branco malvado". Estamos falando de terras sem lei. Lei no sentido de expressão de um contrato social que assegure o bem-estar comum. Ao menos desde que, no século 16, o papa reafirmou, em Roma, que "índios também são humanos".
enviada por Moderador


14/01/2004 22:27
Frituras
O governo sabe por que apanha
Luiz Weis

Três vezes, na semana passada, o governo deu a cara para bater e apanhou – não tanto quanto talvez devesse. De frente para trás, ou do vexame menor para o maior:

1. Na sexta, 9, o ministro da Casa Civil José Dirceu disse com cristalina clareza, em entrevista: "A autonomia do BC não está na agenda de 2004". No dia seguinte, se desdisse. É fácil imaginar o que há de ter acontecido. Decerto pê da vida, o ministro da Fazenda Antonio Palocci, que vinha prometendo que a autonomia do Banco Central seria uma das prioridades do governo este ano, deve ter armado um escarcéu no Planalto e Lula deve ter mandado Dirceu consertar o estrago.

Até aí, tudo bem. Dar o dito pelo não dito, em política, é mais velho do que andar de dois. Mas o ministro Dirceu não precisava ofender a inteligência dos jornalistas aos quais se dirigiu no sábado – e, por tabela, a inteligência dos brasileiros que se interessam por essas coisas –, ao se sair com o seguinte remendo descosturado: "Quero deixar claro que estava me referindo à [agenda da] convocação [extraordinária do Congresso]. Sobre 2004, não existe nenhuma decisão nem que vai entrar nem que não vai entrar".

Será que o mundo viria abaixo se o superministro encontrasse uma forma um tantinho mais decente de explicar o recuo? Se dissesse qualquer coisa como "me expressei mal" ou "interpretei de maneira imperfeita o pensamento do presidente"? Vai ver, isso seria esperar muito, porque...

2. Também na sexta, depois que o ministro da Ciência e Tecnologia Roberto Amaral entregou a sua carta de demissão ao presidente, um repórter perguntou a Dirceu se Amaral não vinha sendo fritado pelo próprio governo. Resposta de quem falou duas vezes sem pensar: "Pela imprensa, pelo governo não."

Embora a ninguém ocorresse examinar o nariz do ministro para ver se tinha sofrido naquela hora um engrandecimento pinochiano, é impossível imaginar que o seu portador não soubesse que acabara de cometer, com a desenvoltura dos poderosos, um duplo atentado contra a verdade dos fatos.

Foi o governo, sim, e a imprensa, não, que levou Amaral à frigideira. Foram, sim, ministros e ministrões de Lula, entre outras figurinhas carimbadas do governo, que, sob a confortável proteção do anonimato, nas suas conversas com repórteres e editores, colocaram o enfim demissionário no topo de todas as listas de candidatos a guilhotina da reforma ministerial (que neste começo de ano se tornou o mais espaçoso e tedioso assunto das páginas políticas).

E foi o pai Arraia, como é conhecido pelo povão pernambucano o cacique Miguel Arraes, e não a imprensa, quem untou a frigideira e acendeu o fogo debaixo dos fundilhos do ministro que representava no governo o PSB, o partido do qual o dotô Arraes, como a ele se referem os seus vassalos, é presidente.

E foram ministrinhos, ministrões e o "arraisado" que sopraram a plenos pulmões para a mídia o nome do deputado Eduardo Campos, neto do velho coronel, como o substituto mais cotado, se não pule de 10, para o lugar de Amaral. (Mas foi a imprensa, sim, que, fazendo o que lhe compete, lembrou que o nobre parlamentar foi acusado de envolvimento, quando secretário de Governo de Pernambuco, no escândalo dos precatórios, a emissão fraudulenta de títulos públicos concebida em São Paulo ao tempo do prefeito Paulo Maluf e do secretário das Finanças Celso Pitta, e licenciada para todo o Brasil.)

E foram cientistas e tecnólogos – a começar do presidente da SBPC, Ennio Candotti – que, em off, on ou como se queira, diziam ao reportariado não esperar a hora de ver o ministro pelas costas. E mexiam os pauzinhos em Brasília para fazer essa hora acontecer o quanto antes.

Da agência Reuters, no sábado:

"Uma fonte ouvida pela Reuters afirmou que o motivo do pedido de demissão de Amaral foi a falta de apoio do Palácio do Planalto, que não desmentiu as repetidas notícias na mídia sobre a saída do ministro. ‘O governo acabou fragilizando o Amaral. O ministro não teve apoio, se viu sem condições políticas pela falta de apoio do governo federal’, disse a fonte".

Este leitor pede a indulgência dos colegas que cobrem o governo e dos que cobrem ciência por gastar tantos toques com o que eles já não agüentam mais de tanto saber. Mas a falsidade não pode passar batida. A esta altura, voltar a ouvir, e justo do ministro de Lula mais-igual-do-que-os-iguais, que a imprensa frita ministros, é dose para leão. Pior do que isso só...

3. Na terça, 6, o porta-voz presidencial André Singer distribuiu uma nota azeda segundo a qual Lula "desautoriza" o "noticiário especulativo" sobre a reforma ministerial que "não ajuda o país, na medida em que pode ter como efeito prejudicar o bom andamento de setores da administração pública".

À parte o fato de que a nota tem como efeito prejudicar o bom uso do idioma em todos os setores – custa crer a este leitor que o português macarrônico da nota tenha saído do teclado do jornalista, acadêmico e autor André Singer –, a acusação de desserviço ao país seria de rir, se não fosse de chorar.

Como uma pá de comentaristas se apressou a lembrar, Lula havia dito no balanço de fim de ano que "notícia é aquilo que nós não queremos que seja publicado, o resto é publicidade". Logo, deduziu o colunista Igor Gielow, na Folha, "não é preciso ser maldoso, nem tucano, nem radical ex-petista para entender que Lula acredita, então, que a publicidade dos atos de seu governo é que beneficia o Brasil".

Além disso, o presidente falar em prejuízo potencial para o "bom andamento de setores da administração pública" equivale, com todo o respeito, a falar em corda na casa de enforcado.

Porque – e este é literalmente um juízo de valor, compartilhado embora por 9 em 10 jornalistas com conhecimento de causa – o único, ou quase único, setor do governo Lula que anda bem, goste-se ou não, é o da área econômica. E nunca, jamais, em tempo algum, o "noticiário especulativo" incluiu entre os ministros decepáveis o doutor Antonio Palocci.

No mais, este leitor assina embaixo da bem aplicada bordoada do colunista Gielow:

"Lula (...) não demonstra saber lidar com a imprensa independente. (...) De resto, jornalista não nomeia ministro. Presidente, sim, e, a ser mantido o cabide de emprego para velhos amigos e neocorreligionários na tal reforma ministerial, aí haveria risco ao ‘bom andamento de setores da administração pública’".

E espera que outro colunista da Folha, Josias de Souza, tenha carregado nas tintas ao escrever que Lula não precisa se preocupar:

"Tome as decisões que tomar, receberá do pseudojornalismo um tratamento ameno. Hipnotizada pela perspectiva de socorro do BNDES, parte expressiva da mídia venderá a capitulação [do presidente, na reforma] como ‘amadurecimento’. Lula será sempre o líder realista obrigado a lidar com políticos sórdidos".

Socorro do BNDES toda a mídia quer. Mas, por exemplo, nem a Folha, nem o Estado – cada qual por motivos e ângulos diferentes – têm sido amenos com as decisões de Lula, quaisquer que sejam. E ambos são "parte expressiva" da mídia – a escrita, pelo menos.
enviada por Moderador


26/11/2003 02:01
EDIÇÃO 25/11/2003
O rabino perde a calma

MAIORIDADE PENAL

"O rabino e as invasões bárbaras"

Luciano Martins Costa (*)

"A história da humanidade é uma história de horrores", diz Rémy, o personagem central do último filme de Denys Arcand, As invasões bárbaras. Ele se refere aos milhões de mortos no processo a que chamamos civilizatório, lembrando que as religiões foram responsáveis pelos maiores massacres que a História pôde registrar. É um momento de desesperança, o confronto do intelectual com a morte, o destempero de quem percebe o fim das ilusões e se questiona sobre o significado da existência.

No último fim de semana, assistimos a um momento de desesperança e desistência de um personagem que tem freqüentado a mídia brasileira nos últimos 30 anos, uma figura que de certa forma os brasileiros aprenderam a respeitar numa semana lúgubre de 1975, quando um grupo de religiosos decidiu enfrentar a ditadura militar e celebrar um culto ecumênico em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, assassinado sob torturas. O rabino Henry Sobel também desistiu. Horrorizado com o bárbaro assassinato da adolescente Liana Friedenbach, de 16 anos, e de seu namorado Felipe Caffé, de 19, ele anunciou oficialmente que passa a defender a pena de morte para os condenados por crimes hediondos.

Ao lado do pastor protestante Jaime Wright e do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, então arcebispo de São Paulo, Sobel foi, depois de 1975 e durante todo esse período, uma referência de ponderação no processo de desmanche da ditadura. Com seu forte sotaque nova-iorquino, que nunca pretendeu abandonar, era uma figura comum nos telejornais e personagem sempre disponível para os repórteres. Sua voz serena e firme sempre foi um contraponto para as manifestações mais radicais entre um lado e outro durante os debates que marcaram a reconstrução da democracia no Brasil. Longe de ser uma unanimidade na comunidade judaica paulista, era, no entanto, uma voz respeitada.

Sobel acaba de desistir. Sua imagem ao lado da apresentadora de TV Hebe Camargo – que sempre representou a face mais conservadora da mídia brasileira, renitente apoiadora do pior extrato que a política nacional conseguiu produzir nas últimas décadas – é um retrato do nosso tempo. Entre o oportunismo de Hebe e a desesperança de Sobel, o pai de uma das vítimas, Ari Friedenbach, desfilou no alto de um trio elétrico seu papel de cidadão desamparado cuja dor não tem remédio. Nem mesmo o noticiário de sua tragédia é capaz de lhe trazer algum alento – a mídia apenas noticia, a mídia está tão desconcertada quanto seus leitores.

Uma luz a menos

Nossos jornais foram caprichosos ao calcular o número de pessoas que aderiram à manifestação, descreveram burocraticamente as palavras de ordem e apenas registraram a declaração do rabino e as repercussões na comunidade judaica de São Paulo. A edição que nos relata a manifestação contra a violência antecede a edição que nos conta sobre o descaso das autoridades policiais de São Paulo nos crimes de estupro, o preconceito que ainda atinge as vítimas e os números irrisórios das ocorrências que resultam em investigações.

Segundo a Folha de S.Paulo, menos de 50% dos casos são denunciados à polícia e, das ocorrências anotadas, pouco mais de 30% têm produzido inquéritos. A rotina banaliza o crime, o entorpecimento da sociedade desanima nossos melhores quadros.

Henry Sobel abre mão de antigas convicções. Sua obstinação humanista resistiu a centenas de estupros e assassinatos de jovens negras, mulatas e brancas na periferia da cidade, mas não pôde suportar o martírio a que os criminosos submeteram a jovem Friedenbach. Como em 1975, a violência chegou perto demais, e a dor do homem parece ter superado a tenacidade do rabino.

Sobel decepciona muitos daqueles que o procuraram nestes anos todos para dar à sociedade o apoio da ponderação, a base de serenidade, tolerância e firmeza com que se constrói a cidadania. Esperemos que seu conhecido apreço pelos holofotes, que o ajudou a educar a opinião pública para a democracia, não o transforme agora em seu contrário. Que ele resista à tentação de atender aos convites oportunistas das viúvas da ditadura, dos saudosistas de esquadrões da morte, e que se recolha a suas reflexões para que o seu momento de fragilidade não venha a reforçar o poder de influência de "ratinhos", "hebes" e outros porta-vozes do obscurantismo.

Os bárbaros avançaram portões adentro. Não precisamos que o líder religioso dos judeus de São Paulo lhes dê mais combustível para suas pregações em favor de mais vingança e mais sangue. Como diz o personagem do filme de Arcand, a inteligência parecer estar em extinção. A conversão do rabino às hostes incivilizadas que defendem a pena de morte é uma luz a menos na nossa quase escuridão.

(*) Jornalista

Visite a nova ediçao do Observatório da Imprensa
enviada por Moderador


20/11/2003 00:10
EDIÇÃO 18/11/2003
Muita calma nessa hora

É o que se espera de gente armada de canetas, microfones e câmeras na cobertura de casos como o do assassinato de Liana e Felipe. É o que não se vê nos jornais, no rádio, na TV. É portanto o que pedem quatro articulistas nesta nova edição do Observatório: Luiz Weis, Túlio Lima Vianna, Victor Gentilli e Sérgio Luís Domingues. A eles:

Lincha! Mata! Esfola! é de Luiz Weis:

"O clima de forte transbordamento emocional desencadeado pelo crime monstruoso de que foram vítimas dois adolescentes de famílias paulistanas de classe média exige dos jornalistas sérios – o que exclui desde logo todos quantos, especialmente no rádio e na TV, vivem de fomentar e explorar as paixões da massa – uma conduta profissional e ética nem sempre fácil de ser adotada.

Não é fácil porque ela deve ser ao mesmo tempo quente e fria.

Quente na cobertura a mais completa, independente e fidedigna da tragédia, para não se reduzir a mera correia de transmissão ou câmara de eco das informações dadas pela polícia – que podem ser verdadeiras ou, como tantas vezes acontece, apenas convenientes para quem as transmite.

E fria na abordagem das questões mais amplas que sempre entram imediatamente em cena nessas ocasiões – como devem ser tratados os assassinos menores de idade e como deve ser avaliada a filosofia de direitos humanos que embasa a legislação brasileira sobre o assunto."

E se fossem Maria e João?, de Túlio Lima Vianna:

"O homicídio dos adolescentes Liana e Felipe, tão alardeado pela mídia na última semana, não passaria de uma tragédia particular como tantas outras registradas cotidianamente em nossas delegacias de polícia não fossem as circunstâncias nas quais ocorreu. Não me refiro ao grau de crueldade na execução do crime, pois dezenas de Marias e Joões são mortos todo dia em situações tão ou mais bárbaras, e não são objeto sequer de uma nota nos jornais de primeiro escalão. O que difere este homicídio daqueles que já não vendem mais jornais é a posição ocupada pelas vítimas na sociedade. Na balança da mídia e de seus consumidores de tragédias pessoais, a vida de um adolescente de classe média vale muito mais do que a de João e Maria...

O que choca nas mortes de Liana e Felipe não são as circunstâncias da execução, mas a transferência que o leitor-telespectador-consumidor faz, colocando seus próprios filhos na situação das vítimas de fato. As mortes das Marias e dos Joões não chocam, pois se dão nas favelas, na periferia, em suma, em lugares demasiadamente distantes e 'perigosos' – as aspas aqui são imprescindíveis – para a maioria dos filhos da classe média."

A oportunidade de um debate, de Victor Gentilli:

"Há muita coisa estranha na maneira como esse crime brutal está sendo tratado pela mídia. O crime é bárbaro, chocou a sociedade, que não pode deixar de tomar conhecimento dos fatos que lhe dizem respeito.

Mas a Rede Globo, jornais e TVs entrando no debate da maioridade penal, num momento em que a sociedade está impactada pelo crime, não parece boa solução. O tema da violência e da segurança é recorrente. As críticas ao Estatuto da Criança e do Adolescente não são de hoje. Mas isso justifica forçar o ministro da Justiça a dar uma declaração? Procurar Dom Aloísio Lorscheider e estimular um debate neste momento?"

A narcotização silenciosa, de Sérgio Luís Domingues:

"Ao ouvir recidivas vezes o argumento de espanto com episódios de gravidez na adolescência, jovens que se embrenham em sítio abandonado mentindo aos pais, de como tais fatos poderiam estar ocorrendo em meio a tantas informações na mídia sobre sexo e violência, senti-me quase que na obrigação de desenvolver esta breve reflexão sobre o tema.

O fato de estarmos vivendo na 'era da informação' não nos torna bem-informados, assim como a avalancha de exposição à sensualidade e à violência não faz com que sejamos mais cuidadosos e nem experts no assunto e nem mais ligados aos perigos que a prática irresponsável do sexo pode causar.

Ao contrário disso, o acúmulo de informação serve para 'narcotizar' o cidadão em vez de estimulá-lo. A esta teoria os sociólogos americanos Merton e Lazarsfeld chamaram de 'disfunção narcotizante'. Condescendentes, preferiram disfunção, e não função, partindo da premissa de que a narcotização não seria interessante à complexa sociedade moderna com grande parte da população politicamente apática e inerte."
enviada por Moderador


12/11/2003 13:11
EDIÇÃO 11/11/2003
Ditadura, cidadania e sustos

A ditadura derrotada, de Elio Gaspari, mereceu quatro artigos nesta edição do Observatório.
"Noites mais escuras, chumbo mais grosso", de Deonísio da Silva, "A democracia que mata", de José Antonio Palhano, "A quem pertence o espólio de Golbery?", de Alberto Dines, e "Impressões de primeira leitura", de Victor Gentilli.

Em seu texto, Dines faz uma pergunta bem pertinente: "As gravações das conversas de um presidente da República com o seu ministro-chefe da Casa Civil podem ser classificadas como propriedade particular?" Independentemente da excelência do trabalho de Gaspari, o editor do Observatório acha que os arquivos de funcionários de governo pertencem ao Estado, e deveriam estar em arquivo público, para consulta pública. "Neste caso, os herdeiros do general Golbery do Couto e Silva arvoraram-se em detentores de um bem do Estado e o distribuíram de acordo com suas preferências pessoais."

A avaliação que Victor Gentilli faz do livro também vale destaque, por trilhar caminho um pouco diferente da maioria das resenhas: ele lembra apropriadamente que para o observador atento algumas novidades do livro de Gaspari, especialmente sobre a postura do general Geisel diante da execução de dissidentes, não são novas.
enviada por Moderador


12/11/2003 13:09
Mídia, anacondas e diabretes

Luiz Weis renova o nunca excessivo alerta sobre a pressa na apuração de escândalos, um diabrete que inferniza a vida dos jornalistas. Em "Cuidado com a picada da anaconda", ele diz:

Ao contestar a reportagem da Folha de S.Paulo intitulada "Para procurador, há prova para prender juízes" (5/11, pág. A 7), a procuradora regional da República Ana Lúcia Amaral acertou no nervo de uma situação para a qual o jornalista precisa estar atento 24 horas por dia. É o eterno risco que se corre na cobertura de acontecimentos ferventes – como é o caso da Operação Anaconda, a maior razzia já feita no Brasil contra juízes, advogados e policiais suspeitos de corrupção.

"O perigo é levar uma picada mortal dos fatos quando, na ânsia de bater a concorrência, repórteres e editores passam ao leitor furos que acabam se revelando furados", diz Weis.

Presumindo que jornais como a Folha não fabricam informação para suprir a crise de abastecimento (...), justamente quando a concorrência late nos calcanhares, a saída é uma só, afirma o autor: gastar mais sola de sapato, celular e saliva na aborrecida tarefa de checar e tornar a checar as informações aceitas pelo seu valor de face, ao risco de chegar do fim do dia sem tê-las "na velocidade e na quantidade necessária".

Paciência: todas as outras alternativas são piores.
enviada por Moderador


12/11/2003 13:04
Em directo de Bagdade

"É um indiscutível sucesso editorial: lançado no dia 3 de novembro em Lisboa, A guerra em directo, do jornalista Carlos Fino, já está na terceira edição", conta Sylvia Moretzsohn em "Olhos abertos e dizer a verdade". "Em apenas uma semana, a tiragem alcançou 9.400 exemplares. O lançamento no Brasil será em dezembro, mas a obra deverá estar disponível nas livrarias ainda esta semana. E como em português nos entendemos, mas não muito, aqui o título será A guerra ao vivo, e o texto também apresentará algumas adaptações."

O Observatório publica longa entrevista de Carlos Fino, inédita no Brasil, transcrita da RTP2, a apresentação da edição brasileira, assinada pelo jornalista Heródoto Barbeiro, e um trecho do livro que fala com carinho especial dos brasileiros.
enviada por Moderador


05/11/2003 01:20
EDIÇÃO 5/11/2003
Morre Niomar Moniz Sodré, do Correio da Manhã

Os jovens não conheceram. Os mais velhos beberam em suas páginas. No artigo O Correio da Manhã cada vez mais longe", Alberto Dines comenta com tristeza a morte de Niomar Moniz Sodré, que comandou o jornal carioca em seu combate solitário à ditadura, e lembra a saga deste grande diário, desaparecido para sempre em 1974.

"Encerra-se melancolicamente a 'fase épica' da imprensa brasileira. Os historiadores logo encontrarão um nome mais apropriado para batizá-la. Os sucessores dificilmente produzirão um substituto."
enviada por Moderador


05/11/2003 01:19
Estadão, que papelão...

O jornalista Luciano Martins Costa faz coro com os leitores do Estado de S.Paulo, que resolveu tirar suas edições da internet, em troca oferecendo-as no chatíssimo formato .pdf.

Os protestos chovem no sítio do jornal. Luciano, que criou o portal do Estadão nos primórdios da rede, aproveita para contar como foram aqueles primeiros tempos de conexão, quando, em meio a disputas internas políticas, muito "entendido" usava o mouse de cabeça para baixo...

No artigo "Estadão inova para piorar", Luciano comenta a "novidade" que, além de nada amigável, acabou reduzindo o peso do jornalão paulistano no portal.

"O desconforto é marcante desde o primeiro acesso, mas é preciso observar que atinge principalmente o leitor que se dirige ao portal por interesse no Estadão, o jornal, pois fica evidente a escolha de reduzir a importância relativa do diário tradicional entre os conteúdos do portal. O problema é saber qual a porcentagem de leitores que se move por fidelidade ao jornalão e quantos se dirigem ao portal atraídos pelo Jornal da Tarde, pela Rádio Eldorado ou pela Agência Estado. A julgar pela escolha feita, os responsáveis pela mudança estão informando o mercado que o Grupo Estado não vê um valor especial no título tradicional, alinhando-o numa barra de navegação comum."

Ele continua: "Quase dez anos depois de iniciado, o projeto mostra uma cara que é o avesso de seus propósitos originais. Mostra uma cara de 'esperteza', com uma lógica que explicita o interesse de manter o usuário preso à linha [telefônica] pelo maior tempo possível – provavelmente baseada na esperança de que essa tática irritante valorize a publicidade. O mercado já deu mostras de repudiar essas manobras marqueteiras."
enviada por Moderador





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